As férias grandes não vêm da agricultura, o hábito não se faz em 21 dias e uma rotina de deitar às terças é pior do que nenhuma. O que a investigação diz mesmo sobre organizar setembro — e um plano de cinco passos que cabe numa semana.
Setembro tem uma coisa cruel: chega sempre com a promessa de que este ano vai ser diferente. Compra-se o material todo, forra-se os cadernos, escreve-se os nomes com uma caligrafia caprichada que não dura até outubro — e depois, à terceira semana, estamos outra vez às sete e meia da manhã a gritar pela mochila de educação física.
Não é falta de vontade. É que preparámos as coisas e não preparámos a rotina. E são coisas diferentes.
Antes de tudo: um mito que vale a pena arrumar
Já toda a gente ouviu que as férias grandes de verão existem por causa da agricultura — as crianças eram precisas no campo. É uma explicação bonita e é falsa, pelo menos no caso que está bem estudado.
O historiador Kenneth Gold, que investigou o calendário escolar norte-americano, explica que o calendário verdadeiramente agrícola tinha um curto período de aulas no inverno e outro no verão. As famílias do campo precisavam das crianças na primavera, para a sementeira, e no outono, para a colheita — exatamente as estações em que hoje há aulas. No meio rural, o verão era época de escola, não de férias.
Quem tinha férias grandes eram as cidades. No início do século XIX, Boston tinha 244 dias de aulas por ano, Filadélfia 251, Nova Iorque cerca de 248. As escolas urbanas funcionavam quase o ano inteiro. As férias de verão apareceram por causa do calor em edifícios sem ventilação, das epidemias, do absentismo e do hábito de veraneio das famílias abastadas. E há registos, no Canadá, de conselhos escolares rurais a protestar contra as férias grandes — em 1886, treze municípios do condado de Grey queixavam-se de que eram “demasiado longas” e que muitos alunos “só podiam frequentar no verão”.
Digo isto porque muda o enquadramento: o calendário escolar não é uma herança natural a que nos temos de adaptar. É uma construção. E se é construído, a rotina que o acompanha também pode ser.
A peça que resolve mais problemas do que todas as outras juntas
Se só puderes mexer numa coisa este setembro, mexe no sono.
A American Academy of Sleep Medicine publicou, com o endosso da American Academy of Pediatrics, as horas de sono recomendadas por idade. Repara na expressão que usam: as crianças devem dormir estas horas “de forma regular”. A regularidade faz parte da própria recomendação.
Quantas horas deve dormir, por idade
Horas por cada 24 horas, incluindo sestas até aos 5 anos. Escala de 0 a 18 horas.
Ver os números em tabela
| Idade | Horas por 24h |
|---|---|
| 4–12 meses | 12–16 |
| 1–2 anos | 11–14 |
| 3–5 anos | 10–13 |
| 6–12 anos | 9–12 |
| 13–18 anos | 8–10 |
Fonte: Paruthi et al., Recommended Amount of Sleep for Pediatric Populations, American Academy of Sleep Medicine, 2016. Não há recomendação abaixo dos 4 meses.
Agora o número que dói. Em Portugal, o Observatório de Saúde Psicológica e Bem-Estar inquiriu alunos do 5.º ao 12.º ano em 2024: 43% dormem menos de 8 horas por noite durante a semana. A média é de 7 horas e meia. E há um gradiente que assusta — no 5.º ano dorme-se em média 8,06 horas; no 12.º, 6,85 horas. Bem abaixo do mínimo recomendado.
A rotina do deitar funciona por doses
Este é, para mim, o estudo mais útil de todos — porque tira a pressão do tudo-ou-nada.
Jodi Mindell e colegas perguntaram a 10 085 mães, em 13 países, com que frequência faziam uma rotina de deitar. E depois olharam para o sono das crianças em função disso. O resultado não foi “quem tem rotina dorme melhor”. Foi um gradiente: quantas mais noites por semana com rotina, melhor — de forma progressiva.
Minutos até a criança adormecer
Bebés e crianças pequenas, por número de noites por semana com rotina de deitar. Escala até 30 minutos.
Ver os números em tabela
| Noites com rotina | Minutos até adormecer |
|---|---|
| Nunca | 23,5 |
| 1–2 | 27,5 |
| 3–4 | 24,9 |
| 5–6 | 20,2 |
| Todas as noites | 18,2 |
Fonte: Mindell et al. (2015), SLEEP, 38(5). n = 10 085 mães em 13 países. F = 66,21; p < 0,001.
Repara na linha de 1 a 2 noites: é pior do que nunca. Uma rotina esporádica parece confundir mais do que ajudar — o benefício só começa a aparecer a partir das 5 noites. É um argumento forte para escolheres uma rotina simples que consigas mesmo fazer quase todos os dias, em vez de uma rotina bonita que fazes às terças.
No mesmo estudo, a diferença na duração do sono entre “nunca” e “todas as noites” foi de 8,23 para 9,87 horas — mais de hora e meia por noite.
O que a investigação diz sobre rotinas (e o que não diz)
Uma revisão sistemática de 2024 percorreu setenta anos de literatura e ficou com 170 estudos. A conclusão: as rotinas associam-se a melhores resultados cognitivos, de autorregulação, socio-emocionais, académicos e de saúde — e têm um papel protetor em contextos de risco, como pobreza ou instabilidade familiar.
Um estudo com cerca de 8 550 crianças em idade pré-escolar, nos Estados Unidos, mediu cinco rotinas simples: jantar em família, contar histórias, cantar, brincar, ler. Por cada rotina adicional em que a criança participava, as probabilidades de ter uma saúde socio-emocional elevada aumentavam 1,47 vezes. E há um detalhe honesto: ler foi a única que não mostrou associação significativa. Contar histórias sim (1,9), cantar sim (1,5), jantar em família sim (1,4).
Vale a pena guardar a distinção que Barbara Fiese propôs há mais de vinte anos: rotina é a prática observável — quem faz o quê, quando. Ritual é o significado que fica — o “é assim que a nossa família faz”. A rotina exige compromisso; o ritual deixa memória.
Quanto tempo até isto pegar?
Vais ouvir que são 21 dias. Não são.
Phillippa Lally e colegas seguiram 96 voluntários que tentaram fazer um comportamento novo todos os dias durante 12 semanas. Entre aqueles cujos dados permitiram modelar a curva, a mediana foi de 66 dias — com uma variação enorme, de 18 a 254 dias.
Mas o achado que quero que leves deste artigo é outro, e está no mesmo estudo: falhar uma vez não afetou materialmente a formação do hábito.
Falhar um dia não estraga nada. O que estraga é desistir por teres falhado um dia.
E a carteira: quanto custa isto tudo
Em 2025, o Observador Cetelem estimou o gasto médio no regresso às aulas em Portugal em 604 € por educando (eram 598 € em 2024) — 164 € só em material escolar essencial e 146 € em vestuário e calçado. Quase metade dos pais (43%) teme não conseguir pagar as despesas de educação, e cerca de um terço conta recorrer a crédito, num valor médio de 367 €.
Há um alívio que nem toda a gente usa: desde a Lei n.º 96/2019, os manuais escolares são gratuitos em toda a escolaridade obrigatória na rede pública. Em 2021/22 foram emitidos cerca de 6 milhões de vouchers, para cerca de um milhão de alunos. Uma auditoria do Tribunal de Contas estimou a poupança entre 26 € e 141 € por aluno, conforme o ano de escolaridade.

O plano, em cinco passos que cabem numa semana
- Recua a hora de deitar aos poucos. Se as férias empurraram o deitar duas horas, não se resolve numa noite. Quinze minutos por dia, começando dez dias antes.
- Escolhe uma rotina de deitar curta. Três passos, sempre os mesmos, sempre pela mesma ordem. Curta e todas as noites vale mais do que elaborada e às vezes — é o que os dados mostram.
- Põe tudo num calendário que a família veja. Não na tua cabeça. Aulas, atividades, quem leva e quem vai buscar. O objetivo é acabar com o “eu pensava que eras tu”.
- Prepara à noite, não de manhã. Mochila, roupa, lanche. A decisão feita às nove da noite custa um décimo da decisão feita às sete e meia da manhã.
- Marca uma revisão para daqui a três semanas. A primeira versão do plano nunca é a boa. Ver o que não está a resultar não é falhar — é a parte do método.

Monta o setembro da tua família
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Fontes
- Paruthi, S. et al. (2016). Recommended Amount of Sleep for Pediatric Populations: A Consensus Statement of the AASM. J. Clinical Sleep Medicine, 12(6), 785–786. PDF.
- Observatório de Saúde Psicológica e Bem-Estar / DGEEC (2024). Saúde Psicológica e Bem-estar 2024. Relatório.
- Mindell, J. A. et al. (2015). Bedtime routines for young children: a dose-dependent association with sleep outcomes. SLEEP, 38(5), 717–722. PDF.
- Selman, S. B. & Dilworth-Bart, J. E. (2024). Routines and child development: A systematic review. Journal of Family Theory & Review, 16(2), 272–328. DOI.
- Muñiz, E. I., Silver, E. J. & Stein, R. E. K. (2014). Family routines and social-emotional school readiness among preschool-age children. JDBP, 35(2), 93–99.
- Fiese, B. H. et al. (2002). A review of 50 years of research on naturally occurring family routines and rituals. Journal of Family Psychology, 16(4), 381–390.
- Lally, P. et al. (2010). How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology, 40(6), 998–1009. DOI.
- Gold, K. M. — entrevista e investigação sobre a origem do calendário escolar, PBS NewsHour.
- Pedersen, J. M. (2012). The History of School and Summer Vacation. Journal of Inquiry and Action in Education, 5(1). PDF.
- Weiss, J. & Brown, R. S. (2003). Telling Tales Over Time: Constructing and Deconstructing the School Calendar. Teachers College Record, 105(9). DOI.
- Observador Cetelem (2025). Regresso às Aulas 2025. Estudos nacionais Cetelem. n = 561 encarregados de educação, agosto de 2025.
- Lei n.º 96/2019, de 4 de setembro — gratuitidade dos manuais escolares. Diário da República.